Defensores públicos pedem regras rígidas para comerciais de bets para frear endividamento e vício
Especialistas pedem proibição de comerciais de bets seguindo o modelo rígido aplicado ao cigarro.
JORNAL RONDÔNIA VIP
09/07/2026 13h39 • Atualizado há 23 horas

"Os anúncios estão em todos os cantos: na TV a qualquer hora do dia, estampados nos campos de futebol, em outdoors e, principalmente, brilhando na tela do celular", resume Luciana Peles da Cunha, que lidera o Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon) da Defensoria Pública do Rio de Janeiro.
O que mais tira o sono dos especialistas é a narrativa agressiva das empresas. Elas tentam emplacar os jogos como se fossem uma modalidade de investimento ou carreira. "Essa publicidade massiva quer convencer o cidadão de que jogo é chance de faturar uma renda extra. Eu nunca vi perder dinheiro ser opção de renda", critica Luciana, batendo na tecla de que, nesse mercado, a regra é clara: a banca sempre vence.
Espelho no cigarro: o apelo por restrição total
Olhando para o estrago social que o vício vem causando, defensores e entidades civis batem o pé: o mercado de bets precisa sofrer o mesmo tratamento que o tabaco teve nos anos 2000, quando os comerciais de cigarro foram banidos da mídia e dos patrocínios.
"É um passo que a gente enxerga como essencial", concorda Marcelo Dayrell Vivas, coordenador de saúde da Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos (Anadep). Ele aponta que a febre das apostas explodiu a procura por socorro jurídico e escancarou o despreparo da nossa rede pública de saúde para acolher quem sofre de ludopatia (o vício em jogos).
Para Vivas, tratar alguém que perdeu as rédeas com apostas exige uma estratégia muito específica, diferente do tratamento dado a outras dependências. "Nos Caps e nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), precisamos estruturar grupos focados nisso. Não dá para misturar o dependente químico com o jogador crônico na mesma sala." O defensor alerta ainda para o pós-atendimento de situações extremas, como tentativas de suicídio motivadas pelo desespero das dívidas: a alta hospitalar não pode ser o fim da linha; é preciso uma rede contínua de amparo para o paciente e para os familiares.
O rombo financeiro no orçamento familiar
Não é só uma questão psicológica; a facilidade técnica fez o ato de apostar virar rotina dentro de casa. Ione Amorim, economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), reflete que essa intimidade diária com o aplicativo torna o combate aos efeitos colaterais muito mais complexo.
E os números assustam. Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que a dinheirama movimentada pelos brasileiros nas bets passou dos R$ 30 bilhões por mês entre o início de 2023 e o primeiro trimestre de 2026.
Essa sangria no orçamento doméstico já cobra a conta: cerca de 270 mil famílias despencaram para a inadimplência severa, acumulando atrasos superiores a 90 dias nas contas básicas. O comércio varejista também viu a clientela sumir: calcula-se que R$ 143 bilhões deixaram de circular nas lojas porque foram direto para as apostas. Para se ter uma ideia do tamanho do prejuízo, o valor equivale a tudo o que o varejo fatura somando duas temporadas inteiras de vendas de Natal.
Fonte: Agência Brasil